Quem é Morto Sempre Aparece
"O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera." (Carlos Drummond de Andrade)
quinta-feira, 15 de março de 2012
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Ele
Há um sol que brilha céu, há a cerveja gelada e a risada alegre que a cada minuto ecoa entre os bons amigos. Não há motivo para não estar satisfeito. Mas meus ombros pesam. Não estou satisfeito. O que não significa de forma alguma que esteja insatisfeito. A verdade é que não há sentimento possível, pois sei que ele está ali e filma cada detalhe em preto e branco.
Não me lembro ao certo quando o conheci. Um dia olhei em volta e percebi que ele estava lá. A partir daí sua presença se fez constante. De vez em quando me pergunto se ele me acompanha desde que nasci ou se me encontrou em alguma rua da cidade. Tentei fugir dele certa vez, mas a cada passada sua presença se fazia mais pesada e terminei por cair, ofegante, de joelhos a seus pés. Considerei expulsá-lo ou mesmo pedir educadamente para que me deixasse em paz, mas logo me dei conta de quão idiota era tal idéia e deixei-a de lado. Afinal, de que me adiantaria que ele fosse embora agora que já sei de sua existência?
Uma vez que ele chega é impossível concentrar-se em qualquer outra coisa. Em tudo que se pense, de imediato sobrepõe-se sua densa silhueta. Em uma de suas visitas chegou enquanto eu jantava e me fez querer devolver a comida ao prato. Entrou em meu quarto enquanto eu tinha em meus braços uma bela mulher. Não pude mais sentir o sabor dos lábios dela. É particularmente difícil suportar quando ele aparece durante o horário de trabalho. Fica quase impossível segurar a vontade de me levantar e gritar para todos que eu sei que eles o veem ali e que só ficam atrás daquelas mesas nojentas para se esconder do olhar dele.
Um dia, enquanto eu absorvia a brisa do final da tarde, ele sentou-se ao meu lado e me ofereceu um cigarro. Me lembrei da vez em que me disseram que cada cigarro diminui sua vida em 11 minutos. Neguei. Ele me perguntou por que eu queria prologar minha vida em 11 minutos. O sol começava a se por e nos pintava de laranja. Aceitei o cigarro. Ele gentilmente me estendeu seu isqueiro.
domingo, 13 de novembro de 2011
Conto barato
O cheiro do café barato invadiu suas narinas. Olhou para os olhos dela e por um instante teve a impressão de nunca ter visto antes olhos tão vazios.
- Acho que te amo...
- Hã?
- É isso, te amo.
- O quê? A gente mal se conhece, não conversamos nem cinco minutos e você já está aí, achando que eu sou a mulher da sua vida?
- Que mulher da minha vida?! Não tô te pedindo em casamento, só tô dizendo que te amo!
- Calma, não precisa ficar nervoso! Eu sei que não é isso, mas se você diz que me ama é porque isso significa alguma coisa, não?
- Mas que porra! Não to falando de passar o resto da vida com você, não to falando de dividir a preocupação com as prestações de uma merda de casa enquanto um moleque chora por um motivo idiota no canto de um quarto! Não to falando de passar uma vida inteira assistindo algo que morre a cada batida do relógio! Só to falando que eu te amo AGORA, só isso!
-Caralho, precisa gritar assim na frente de todo mundo? – ela se levantou bruscamente e estava realmente furiosa - Já devia ter imaginado que você é só mais um desses malucos bêbados mesmo! Quer saber? Vai tomar no cu, nunca mais olha na minha cara!
Ela bateu com raiva a porta do café e ele voltou para casa. Ninguém nunca o entenderia. Acendeu um cigarro e abriu uma garrafa de vinho. Não se lembrava da última vez que havia secado tão rápido uma garrafa de vinho.
- Já sei, é essa merda desse bigode! Tudo começou quando essa porra cresceu!
Correu para o banheiro e ligou a torneira. Passou a lâmina na cara com a força de quem tentava extirpar de si todos os males que já haviam habitado aquele ser.
Enquanto observava o vermelho que descia pelo ralo da pia, pensou que talvez poderia cortar os pulsos ou a garganta e que aquele vermelho, uma última imagem gravada em suas retinas, seria um bom aperitivo para os vermes.
- Não é boa coisa se barbear bêbado – pensou consigo.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Sobre mulheres e quadros
Azul brilha o sol da solidão
e sublima a matéria, já escassa.
Sobra somente a essência - disforme -
de cor salmão - sem graça -
(O sol é frio como Matéria sem Essência)
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A Yuri Zacra
domingo, 10 de julho de 2011
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
A(d)ve(r)s(s)os
Andamos pela estrada
com a escuridão nos seguindo de perto.
A neblina beijando nossos rostos
e cegando nosso olhos.
Sem saber aonde chegaremos
lentamente andamos.
A dúvida, nossa única certeza
em uma vida que nos sussurra ao pé do ouvido
e promete ser curta.
Longe da obrigação de sermos felizes.
Longe da obrigação de sermos sábios.
Longe da obrigação de um futuro promissor,
no alto de lugar nenhum
rimamos e rimos,
planejamos viagens.
Voltaremos?
Mais um gole de vinho e de esperança de que
quando no horizonte um majestoso cogumelo em chamas surgir
poderemos sorrir enquanto aguardamos a explosão.
com a escuridão nos seguindo de perto.
A neblina beijando nossos rostos
e cegando nosso olhos.
Sem saber aonde chegaremos
lentamente andamos.
A dúvida, nossa única certeza
em uma vida que nos sussurra ao pé do ouvido
e promete ser curta.
Longe da obrigação de sermos felizes.
Longe da obrigação de sermos sábios.
Longe da obrigação de um futuro promissor,
no alto de lugar nenhum
rimamos e rimos,
planejamos viagens.
Voltaremos?
Mais um gole de vinho e de esperança de que
quando no horizonte um majestoso cogumelo em chamas surgir
poderemos sorrir enquanto aguardamos a explosão.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Hepatite

O sangue solar lava azul o céu
que imaculado e límpido paira e treme
sobre a ameaça de um horizonte de metal e morte,
calçado com botas de sangue, que
em sua marcha rumo ao zênite
mancha de vermelho a pureza anil.
Até quando será minha alma
torturada por exércitos e genocídas?
Devo matar?
Devo morrer?
Fobia, Abulia, Hipocrisia.
Serei eu meu próprio assassino?
Enquanto o ódio domina minhas entranhas,
o comodismo inunda meu peito
afogando meu coração.
Devo matar?
Devo morrer?
No fim das contas vejo sempre o mesmo:
Sou cego.
Enquanto isso, exércitos e genocídas marcham
irrigando a terra com sangue.
E um dia, em uma poltrona fétida,
meu corpo será encontrado, gelado,
entre livros de filosofia e filmes pornô.
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